lideranca

Dias atrás, em uma aula do MBA em Gestão Comercial da FGV, comecei a conversar sobre características que considero básicas para o sucesso das lideranças. O debate foi tão interessante que gostaria de compartilhar as conclusões com você.

Acho que é essencial que o líder tenha coragem, inteligência, disciplina e humildade. Para justificar essas virtudes, gostaria de primeiro explicar como as entendo.

Em primeiro lugar, quero deixar claro que coragem não é o antônimo de medo. Diga-se de passagem, acho que pessoas totalmente desprovidas de medo são inconsequentes (e não corajosas). Para mim, coragem é a virtude de enfrentar o medo sem se deixar paralisar por ele, mas também sem desconsiderar que, ao nos acautelar perante situações arriscadas, o medo nos torna prudentes e contribui para que sejamos mais sensatos.

Já a questão da inteligência exige um certo conhecimento etimológico para ser devidamente contextualizada. A palavra “inteligência” é formada a partir da conjunção de duas palavras latinas: inter + elegere. De maneira mais literal, significa “escolher d’entre”. Ou seja, a inteligência é a capacidade de fazer escolhas.

Eu costumo dizer que o grande desafio que enfrentamos ao utilizar nossa inteligência não é fazer escolhas, mas, sim, lidar com as renúncias que são inerentes ao ato de escolher. Explico melhor. Ao nos depararmos com a possibilidade de escolher, invariavelmente estamos diante de mais de uma opção. Então, o problema nem sempre é fazer a escolha, mas abrir mão das opções que fomos obrigados a descartar.

Entendo disciplina como sendo o comportamento baseado no compromisso. Isso significa que disciplinada não é a pessoa que faz sempre as mesmas coisas, nas mesmas situações. Mas aquela que faz as coisas porque entende que tem o compromisso de fazê-las. Um exemplo são as pessoas que conseguem mudar seus hábitos de vida porque estão comprometidas com a ideia de ter uma velhice mais tranquila. Ou aquelas que pagam todos os impostos não porque o governo as fiscaliza, mas porque acreditam que esse é o seu papel e seu dever como cidadão.

Entendo humildade como sendo a noção dos próprios limites. Para mim, humilde não é o subserviente, o acanhado, o tímido. Saber distinguir as coisas de que você dá conta daquelas que você não é capaz de gerenciar é o sentido que empresto a essa desgastada palavra.

Desenvolvendo essas virtudes

Quem não tem coragem não consegue liderar. O mesmo pode ser afirmado sobre quem não tem medo. Para desenvolver a coragem, é preciso aprender a lidar com o perigo. Isso significa não procurar se esconder atrás de artifícios comumente utilizados pelos mais medrosos. Um exemplo interessante é o fenômeno do group thinking (ou pensamento grupal), bastante discutido quando se debate processo decisório. Sinteticamente, podemos dizer que o group thinking desmente a crença popular de que as decisões coletivas são sempre melhores do que as individuais (o ditado diz que “duas cabeças pensam melhor do que uma”). Existem inúmeros casos que evidenciam que ao transferir para o grupo a responsabilidade de decidir sobre questões críticas, o que se acabou conseguindo foi tomar decisões equivocadas.

Também é preciso desenvolver a coragem de manter um ponto de vista mesmo quando somos acusados de “donos da verdade” e “inflexíveis”. Nem sempre é fácil defender opiniões, mas se não houvesse pessoas convictas de suas verdades, não haveria cinema falado nem telefone, pois seus inventores foram duramente castigados com acusações de arrogância ou presunção porque, naquela época, o senso comum dizia que ninguém queria som nos filmes ou falaria com alguém sem olhá-lo nos olhos.

Muitos autores têm falado sobre inteligência aplicada à liderança. Pessoalmente, acho essa uma das discussões mais importantes sobre o tema. Vou tentar, com um exemplo, evidenciar como se pode desenvolver a capacidade de fazer as escolhas certas.

Talvez você já tenha tido a oportunidade de ler o livro Motivação 3.0, do Daniel Pink. Nele, o autor afirma que as pessoas estão permanentemente desejosas de oportunidades para se desenvolver. Será isso verdade? Recentemente, conversei com diretores de RH que reclamavam do baixíssimo índice de visitação às plataformas de autodesenvolvimento de suas empresas. Milhares (às vezes milhões) de reais haviam sido investidos e a taxa de utilização se mantinha muito pequena. Creio que, nesse caso, falta a compreensão de um fato brilhantemente analisado por Erich Fromm em seu imperdível Medo à liberdade: a maioria das pessoas não tem drive nem disposição para gerenciar sua evolução profissional. E o que fazer? Aceitar, pura e simplesmente? Acho que não. O importante é aprender a distinguir o joio do trigo, apoiando e incentivando quem demonstra querer evoluir e respeitando aqueles que se sentem satisfeitos com o que já sabem.

Quanto a ser disciplinado, sinceramente acho que é algo que, como se diz no interior, “vem de berço”. Posso perceber como algumas pessoas lutam tenazmente contra a indisciplina, mas são derrotadas pela própria inércia. Você pode até me perguntar se eu acredito que é possível ensinar alguém a ser disciplinado. Minha resposta vai ser que possível é, mas também é muito difícil.

Por último, a questão da humildade. Meu melhor conselho é que cada um se conheça suficientemente bem para não cair na tentação de pensar ser o super-homem, capaz de tudo. Mas também não aceite com facilidade quando as pessoas quiserem lhe impor seus pontos de vista. Pessoalmente, eu procuro me defender das imposições tendo uma visão tecnicamente defensável daquilo que discuto. Isso ajuda muito. Também ajuda muito não querer discutir coisas que você não entende, pois estará sempre em um campo minado.

E o que você pensa a respeito disso tudo? Gostaria muito de conhecer sua opinião!

JB Vilhena é coordenador do MBA em Gestão Comercial da FGV.

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